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Tradução - Maria Etelvina Santos

"Os anos" - Annie Ernaux


Capa do livro "Os anos" por Annie Ernaux

"Os desafios da tradução"


A experiência de traduzir a escritora francesa Annie Ernaux, concretamente Os Anos (Lisboa, Livros do Brasil, 2020), revelou-se não apenas uma experiência enriquecedora, como qualquer acto de tradução, mas sobretudo um desafio e um fascínio imensos – desejo maior de quem traduz. Sinto-me, portanto, privilegiada por me ter sido dado traduzir este livro e continuar a pensar, a partir dele, aspectos relacionados com a teoria da tradução. Desta experiência, gostaria de destacar alguns aspectos que ainda hoje continuam a surpreender-me na escrita de Annie Ernaux e que fazem dela uma das grandes escritoras da nossa contemporaneidade. Nas suas obras, o grande desafio colocado aos tradutores coincide, embora de forma mais aguda, com o desafio colocado aos leitores, isto porque também ao leitor é exigida a entrada em realidades e estratos linguísticos nem sempre reconhecíveis (que o tradutor não deverá dissipar), bem como a necessidade colocada ao leitor de estabelecer constantemente um diálogo com diferentes vozes (que o tradutor precisa de identificar), vozes mais do que personagens, que se desdobram e transformam ao longo da narrativa, que por vezes são coincidentes, noutros casos se distanciam, adquirindo especificidades próprias a que leitores e tradutores precisam de dar atenção sob risco de se perderem na narrativa e perderem o prazer do texto.

Estamos perante uma narrativa que, situada entre os meados do século XX e a nossa contemporaneidade, não acarretaria problemas quanto à transposição da língua francesa para a portuguesa, pelo facto de estarmos perante realidades próximas temporal e geograficamente. No entanto, mesmo tratando-se de uma realidade epocal muito próxima, existe uma especificidade no que diz respeito à realidade político-cultural francesa que a realidade portuguesa reconhece de maneira diferente, e não só no que respeita à língua. Refiro, a título exemplificativo, o que poderia ser considerado uma incoerência em termos de tradução, mas que foi a minha opção quanto ao critério a seguir: alguns títulos (de canções, filmes, livros, anúncios publicitários) foram mantidos no original, outros foram traduzidos, para outros utilizei a tradução de referência no nosso país, outros ainda foram adaptados, mais do que traduzidos. Dou alguns exemplos: o título das canções francesas dos anos sessenta, por exemplo, aparecem em francês, pois foram reconhecidas e cantadas em francês pelos jovens portugueses dessa época e ainda hoje assim são referidas; mas os títulos de filmes que, na mesma época ou posteriormente, foram vistos em Portugal, não só foram traduzidos para português, como aparecem na tradução com que surgiram no nosso país. Foi preciso procurá-los. Nesta mesma linha, para muitos anúncios publicitários e programas de Rádio e TV, foi necessário procurar as correspondências e os títulos de programas, concursos, publicidade em geral, pelo qual eles são reconhecidos na realidade portuguesa, o mesmo acontecendo com slogans muitas vezes rimados cuja tradução livre seria a única solução eficaz na língua de chegada. Fazer na nossa língua o que o outro fez na língua original continua a ser uma das máximas da tradução – não se traduzem palavras, mas as realidades que elas representam.

Concluindo, o maior desafio desta tradução, bem como muito do seu prazer e enriquecimento, terá sido o facto de estar perante um romance que se bifurcava em dois graus de dificuldade (que à partida, pela sua actualidade, eram inesperados), constituindo um quase paradoxo que me via obrigada a enfrentar: a pertinência ou necessidade de notas (do tradutor) será conciliável com a escrita poética de um romance, com a sua musicalidade e poeticidade? Como manter a ausência de notas quando a realidade transposta me exigiu, enquanto tradutora, uma recriação que, ainda assim, permaneceria aquém do original ou que só com a nota poderia ser justificada? Como não usar essa forma de generosidade para com o leitor, quando ele poderia ir mais longe no texto com essas pistas fornecidas? Como guardar, para mim só, o tanto que aprendi ao traduzir este livro? Até onde vai o papel do tradutor? A regra é que não se usem notas, ou o mínimo dos mínimos. Mas, em última instância, só ao autor cabe decidir. No meu caso, confesso-me excessiva: foi necessário que Annie Ernaux impusesse um limite de notas, ou não teria guardado tantas só para mim. Que me perdoem os leitores que desejaram ter mais notas ao longo do romance, mas o autor é soberano, e ele conhece bem a verdade das suas razões. Estou-lhe grata também por isso.

Maria Etelvina Santos


ERNAUX, Annie - Os anos. 1ª ed.. Porto: Livros do Brasil, 2020. ISBN 978-989-711-074-0



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